domingo, 13 de abril de 2014

Olho de Girassol



 



Um bicho sem nome que chamam de Girassol ou o Amarelo que amanhece:  pequena história sobre  um amor venturoso de sol de meio dia.



Me cabe  contemplar tudo como alguém que senta pra olhar pirâmides. Sem pressa e com bastante inexatidão. Eu geralmente sento na beirada ou bem no meio. Mas num pedacinho  de tempo e num piscar de pensamento, cheguei a uma constatação quase impetuosa:  O teu olho é filho do sol; nem  é o fim do mundo nem sinal de benfeitoria de algum deus. Não. Teu olho é uma faísca de sol,um jardim de flores gigantes, duas casas bem grandes de formigas vermelhas, é bonito que nem criança brincando de andar de costas ou sabe quando uma criança encosta no mar pela primeira vez? Pois é. É isso. Só que nesse caso o MAR é amarelo.
Eu não sei que bicho que você é. Eu também não sei o que eu sinto quando encosto na tua pele. . Eu achava que sabia. É feito de paz, de água morna, de inconformismo, de coisa misturada. Eu tenho uns inconformismos. Na verdade, eu queria morar em você. Morar que nem uma semente...morar que nem uma trepadeira, só que, por dentro. Eu sei que, deve doer ter uma trepadeira morando dentro da gente. Mas nesse caso eu estaria mergulhada, em estado de imersão de semente que tá dentro do copo de água. Ou de pedra no meio da poça de chuva. Eu ficaria feliz se isso durasse pelo menos 2 semanas, que é o tempo de criar limo ou quem sabe raiz.. No meio dessa coisa grande existem uns   muitos tons de eternidade, dourados, outras coisas lilases e muitos vermelhos. Coisa acobreada  de um bicho que corre. Um bicho que queima. Um bicho que tem fome. Um bicho que não sai no retrato. Seu gosto não sai no retrato. E nenhum desses movimentos que você faz quando anda. Eu gosto do jeito que você anda.E definitivamente não vou falar da gargalhada. Eu jurei que o som da sua gargalhada é um outro lugar que eu quero sentar pra olhar ou pra ouvir e depois sair contando como é que é, que nem aquelas pessoas que olham paisagens e contam numa revista pra gente que nunca foi lá e que nunca vai estar...
Sendo assim, eu determinei ( junto com a minha enorme simpatia pela chuva. Por todas elas): Eu não vou sair de dentro de você. Mesmo que apareça um sacerdote ou um servente da Razão e diga que eu não mereço.

Andrea Dora,


Imagem de Dave Mckean
 


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Souvenir..



FEROZMENTE ou conselho é souvenir de gentinha cheia de amor.

Jogue limpo com o pecado. Esqueça o tempo. faça uma coisa torta com a maçã de deus.bem doce e feroz como a boca de Eva.Bem língua. Bem água. bem que vai pingar... Ninguém pega gota que escorreu. Ninguém sabe morder forte quando a comida é muita. Quando a coisa dá pra todo mundo. Lasque o saco das surpresas. Monte as asas despenadas. Liberte o inconformado. Pense o sujo como se fosse gosto. Limpe o canto da boca. Assuma: prefiro sangue, prefiro dias escuros, prefiro ventos que derrubam, prefiro chuva de catástrofe. Depois de cansado e com todas as raízes expostas. Seja violência, aromas e poesia bem ferozmente.


PS: e pra completar: dê uma  lambida antropofágica entre as pernas do anjo indecente e contido. tenha sempre raiva do medo dos outros.

Andrea Dora- Salvador ( uma cidade sem paisagista).
(Imagem:  Branca de Neve de Walt Disney-1937)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

NINA.



NINA: nucas, sujeiras e outras tolices bem doces.

Para Marie P; o mais puro ímpeto de vida.


voltando a falar naquele assunto do qual fugimos o tempo, todo; eu caço a noite. Eu caço olhos desavisados, mãos e dedos longos. caço bocas.
sempre nos mesmos lugares. Eu ando pelas ruas e os prendo quando são carentes e desesperados por um pouco de atenção. Eu faço com que se sintam melhores. Sempre darei o meu melhor. Por um minuto. Eles querem se perder... São tolos.
Um sorriso, dentes, um pouco de cabelo na nuca, um cílio perdido pelo rosto, mãos que não param, bocas que são sempre espontâneas, idéias surpreendentes. Imaginam que tudo isso têm um cheiro particular e bom. sonham em ser os únicos.
Falam de cheiros e doçuras e perdição. Voltam a pensar e querem. Compram novas idéias em lugares recomendados, bebem mais e ensaiam novas mentiras.
Tudo envolve aquele sorriso e aquela doçura. Aquela sujeira, aquele balanço fingidamente moleque. Borboletas que voam e que são puro veneno. Venenos fortes demais.
Não quero suas flores mortas. Mesmo que sejam vermelhas. Não quero teus presentes iguais. Batons, saias, livros, discos e palavras encantadas. A pele basta. Peles quentes desenhadas com grãozinhos de beleza que lembram pinturas japonesas. Tudo pequenino, tudo feitinho por Deus. Quero idéias repetidas como ondas que vão e que voltam.
Quero sem controle. Quero sem pensar. Quero num canto qualquer. Quero no chão. No meio da rua. No meio da chuva. No sol de meio-dia. Quero com dor, com cuspe, com som de torneira pingando e dedos intermináveis. com som de Nina... aquela mesma.
Língua. Músculo. Pêlos. Sacrifícios. Quero mexer na tua semana. Sem açúcar, sem profundidade. bem vulgar,  bem suja e bem doce.


Andrea Dora
Salvador, em um mês de carnaval qualquer. qualquer dia..

(Imagem: Rodney Smith).



Elis- A Dama do Apocalipse.



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Céu da boca...


Céu da boca ou a tramela da porta do labirinto. Número três e nem mais um décimo.

Não sirvo pra servir. Escancaro a boca e saem sem fins e sem quereres. Não há riscos.Não há rastros. Não sirvo pra ninguém. Todos os dentes são grandes como dentes de um cavalo.Não basta de amar, mas não sofre. Cavalga tantas palavras.Como se tivesse permissão.
Não comprei as normas da desilusão.sou isso e aquilo e sem saber eu me perco em mim e sem achar finjo que caiu alguma coisa no chão. Não vou pra lugar nenhum. Estou assistindo a cintilância de passar o tempo se desconhecendo.Não interrompa.Devaneios e silêncios.
 Não te percas na minha boca.existem labirintos menores.
Ali, onde ficam todos sentados. Ali onde eles se transformam no que vêem. Eu persisto em ser nada. Em nada querer. Em nada. Tateio contornos e desapercebo todas as formas. São nada.
Não te percas na minha boca. Existem labirintos melhores.
Sem florestas de dentes. Sem sorrisos de querência. Sem torpor. Crua.Pura.Indecisa. TUDO SEM APARAS. O meio do meio é a língua. E esse é o melhor lugar.Não sente ainda. Não aí. Uma nascente sem dono.sem potrões. Língua de égua.  Língua De água.
Serpente.Língua de passarinho. Inseto que rasteja. Récem.Parido.
Não acredite demais. Há por trás outras tormentas.tempestades. sem venturas.
Sim.Existem labirintos maiores.

Obs: Chove tudo e eu pedi. Se não agüenta não senta, menina. Chuva é coisa séria.

Andrea Dora-Salvador

( Imagem especialmente feita por Luna Matos)